Comparação entre Brasil e EUA até o século XVIII

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Os economistas passaram a inserir o Brasil em um bloco formado por Rússia, Índia e China (os denominados “Brics”), que entendem destinado a liderar a economia mundial, dentro de algumas décadas ou no decorrer deste século XXI. Para o efeito, nosso País reuniria condições ideais pertinentes à extensão territorial, abundância de recursos naturais e estabilidade política.

O tema posto alhures finda por reviver antiga discussão entre nós, brasileiros, respeitante às razões que ditaram desenvolvimento nacional não tão célere quanto o dos Estados Unidos da América. A rigor, ambos os Países são dotados de recursos equivalentes que curialmente se sabe não disponíveis (pelo menos em tão grande escala) tanto nas Américas quanto na Europa, África, Oriente Médio, Oceania e Ásia.

Em regra, a troca de idéias inicia-se através de uma boa piada sobre o povinho que habita por estas plagas, onde tudo que se planta dá, desde dezembro até o mesmo mês do ano seguinte, de modo ininterrupto (diversamente de outros Países, inclusive os EUA, sujeitos às intempéries das estações anuais).

Depois do riso, inexoravelmente alcança-se o ridículo quando se passa a controverter sobre hipotética supremacia racial dos povos de olhos azuis que vivem ao norte ou acima da linha do Equador. Na antiguidade, foram nômades ou caçadores,  decerto não dotados de qualquer organização social e política comparável à dos povos mesopotâmicos de olhos escuros e pele morena, nem muito menos guardariam superioridade intelectual alguma em face de egípcios (norte da África), medas (Oriente Médio), gregos e romanos (sul da Europa).

Finalmente a discussão passa a se tornar séria a partir da comparação entre a colonização lusitana, no Brasil e a anglo-saxônica, nos EUA. Assinale-se, de antemão, que nossa ocupação deveu-se exclusivamente ao elemento racial luso, em obediência à estratégia ditada pela metrópole. Em contrapartida, o País ao Norte receberia levas de emigrantes oriundos de povos europeus diversos que, para o efeito, não sofreram restrição alguma por parte da Coroa Britânica.

O queixume de quem desentende que para cá teriam vindo degredados não se afigura pertinente, porquanto também os EUA receberam condenados em busca de novas oportunidades. A diferença afigura-se fundamental no que diz respeito, isto sim, ao fato de nosso País haver recebido homens dedicados à conquista através da luta armada, enquanto para o continente norte-americano dirigiram-se famílias afeiçoadas ao cultivo da terra.

A miscigenação resultante de ausência da célula familiar original tornaria o colonizador luso racialmente tolerante, mas em contrapartida a formação religiosa e educacional tanto dele quanto dos descendentes amestiçados seria bem inferior, evidentemente, ao colono norte americano inteiramente estranho à lassidão de costumes então vigorante em terras brasileiras.

Por acreditar em MONTEIRO LOBATO, para quem um País se faz com homens e livros, asseveramos que a primeira vantagem que creditamos aos Estados Unidos da América não envolve raça, mas o domínio do melhor conhecimento para vencer o meio (educação e cultura).

A pirâmide formadora do contexto social brasileiro tinha a cúspide ocupada por grandes proprietários agrícolas e pecuaristas detentores de capital aplicado em escravos, para o efeito do cultivo e exploração da cana de açúcar em todas as regiões então ocupadas.  Visava principalmente o mercado internacional, a contrário da lavoura norte-americana não jungida à monocultura e dedicada à produção de alimentos em geral, destinados tanto a consumo interno quanto à exportação, razão pela qual gradualmente geraria uma classe média capaz de poupar rendimentos.

A elite rural brasileira era composta por nobres, militares e Ordens Religiosas agraciados com sesmarias (ou doação de terras) por “El Rey”. Vinculados se encontravam, pois, à estratégia inicial da Coroa interessada em administrar a Colônia a partir das diferentes capitanias.  Todavia, as dificuldades conjunturais econômicas do pequeno Portugal, causadas pelo declínio da mineração brasileira, impeliram D. JOSÉ I a entregar a condução do governo ao MARQUÊS DE POMBAL (Sebastião José de Carvalho e Melo). Desde então o objetivo de Lisboa passou a ser o de garantir a unidade territorial da Colônia através da centralização governamental.

A decisão política talvez fosse em dimensão menor, mas de qualquer modo afigurar-se-ia semelhante à de CARLOS III então decidido a reforçar o controle de Madrid através da “hispanização” da administração pública colonial. A rigor, a partir de então ambas as monarquias se encontravam convencidas de que os avanços respectivos no espaço sul-americano já se encontrariam esgotados, impondo-se então a delimitação de seus domínios, não só para prevenir conflitos entre si, mas também  se acautelar da cupidez de ingleses, franceses e holandeses presentes nas Guianas e Antilhas. Os sucessivos Tratados de Madrid (1750), Pardo (1761), Santo Ildefonso (1777) e Badajoz (1801) comprovam sobejamente o novo desiderato geopolítico.

O fim do período pombalino (1750-1777) praticamente coincide com a Independência dos EUA, declarada no recinto do Congresso a 4 de julho de 1776 e reconhecida pela Inglaterra através do Tratado de Versalhes, em 1783. Nas Colônias do Norte dos EUA já existia uma burguesia acumuladora de capitais. Dominada pelo ideal libertário iluminista, imperante no século XVIII, lograram não só liderar a rebelião contra o jugo inglês, mas também obter o apoio dos grandes proprietários rurais sulistas. Para o efeito, firmou-se um pacto mediante o qual se viu mantida a escravidão, a partir de então passando os escravocratas a prestar decidido apoio à insurreição nacional.

A rigor, no extrato social colonial brasileiro somente se podia distinguir os grandes proprietários rurícolas e os colonialistas incrustados no alto comércio português – que seriam assemelhados aos Legalistas ou “Tories” fiéis à Coroa Britânica e adversários da emancipação. Afigurava-se insignificante, pois, a classe média brasileira que acaso fosse capaz de assumir o ideal republicano, separatista ou não.  Ademais, a denominada “revolução industrial” era ignorada tanto em nossos limites territoriais quanto nos da metrópole preferencialmente dedicada à exploração dos recursos minerais da Colônia.

O século XVIII marca a vantagem norte-americana fundada na educação transmitida por imigrantes de diversas nacionalidades e concomitante absorção da cultura européia mais avançada como soia ser a de matiz franco-anglo-saxônica. Os recursos naturais de que dispunham passam a ser ainda mais explorados a partir da independência então conquistada e a organização descentralizada ou federativa de um novo País continental republicano.

A organização centralizadora e descentralizadora a distinguir um e outro País constitui opção geopolítica histórica que melhor deve ser examinada em capítulo destacado.

O emprego do trabalho escravo é o traço comum entre as duas economias políticas, assinalando-se que o antagonismo interno estadunidense já se anuncia a partir das primeiras iniciativas industriais por parte das antigas Colônias nortistas.

De qualquer modo, impõe-se reconhecer que ao conquistar a independência e criar um novo País os norte-americanos anteciparam-se quarenta e seis anos ou quase meio século a nós brasileiros, vez que nos tornamos independentes só em 1822. Constitui vantagem deveras significativa.

Concluímos, ademais, que o intercâmbio cultural resultante da imigração de diferentes povos aquinhoou o cidadão comum norte-americano de conhecimentos por si só capazes e suficientes de incentivar a livre iniciativa empresarial, de modo a acarretar acúmulo de riquezas, criação de empregos e desenvolvimento acelerado nacional, a partir do século XIX seguinte.

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