Sobre a Verdade tanto Relativa quanto Absoluta
O inquirido a tudo respondia, sem pestanejar ou titubear. No entanto, olhou fixamente para o inquiridor, preferindo o silêncio ao lhe ser perguntado – “o que é a verdade”? Paradoxalmente, o pensamento de tal modo traduzido torna-se mais e mais atordoante a cada século que passa, de modo a convencer a Humanidade de sua perpetuidade.
O romano decerto era dotado de cultura. Prova-o, sim, o fato de haver questionado o acusado mediante emprego de chave escolástica (de inspiração grega) destinada, em sua época, a provocar respostas absurdas por parte de falsos pensadores, de modo a se verem conduzidos ao ridículo perante platéia atenta.
Apresentaram-no ao inquisidor como um criminoso qualquer – posto que sujeito à pena mais infamante e cruel reservada a um ladrão, por exemplo, também sujeito a julgamento. No entanto, sua defesa não condizia com a de um carpinteiro, cuja ignorância pressupunha-se, porquanto não dedicado à vida sacerdotal que constituía, naquela época, o único meio de acesso à educação disponível ao homem comum.
Aos ouvidos do cidadão patrício vinha a informação de que, ainda infante, houvera sido sacrílego o bastante tanto para se reunir com os doutores dedicados aos assuntos sagrados quanto ousar refutar cada argumento que então apresentaram. Prodigiosamente inteligente e ao mesmo tempo rebelde, pois, não fizera parte de escola religiosa alguma, na Galiléia. Findaria por se ausentar, durante mais de vinte anos, viajando não se sabe para onde. Retorna, já então adulto, demonstrando possuir conhecimento superior ao não se deixar envolver por velho aranzel filosófico.
O pragmatismo característico fê-lo cedo se aperceber de que o acusado, ainda criança, recebera ouro, mirra e incenso. Quem o presenteara foram três magos oriundos da Mesopotâmia. A rigor, não eram reis. Sacerdotes zoroastristas, isto sim, dedicados à leitura dos astros, monoteístas e convictos da existência do eterno conflito entre o bem e o mal. Durante a conquista do antigo Império Meda (ou Persa) Alexandre, o Magno, houvera passado no fio da espada milhares de pessoas que então acreditavam nas palavras do filósofo Zoroastro.
O metal amarelo soia ser o bem de menor valor se comparado às duas especiarias aludidas. A ele, romano, não teria sido conferido tamanho patrimônio por ocasião de seu nascimento no seio de família patrícia, nem guardaria expectativa de receber legado equivalente por parte de seu “paterfamilias”. Portanto, desde a infância o inquirido era mais rico do que seu inquisidor.
A pé ou em muar, sozinho ou acompanhado da família, poderia o acusado tomar a direção da mais próxima cidade da Ásia Menor sob influência cultural grega, de modo a vencer em alguns dias a distância contada a partir da aldeia de Nazareth. Presenteado como se rei fosse, possuía então o suficiente a fim de lá poder viver com todos os seus, enquanto adquirisse os conhecimentos de que dava prova inconteste. Para o romano, também apreciador do Helenismo, não constituiria surpresa alguma, inclusive, que houvesse sido iniciado nos mistérios da Ilha de Elêusis, à sua vez próxima de Atenas.
Afigurava-se deveras estranho ao romano, também, o fato de homem tão culto só andar em companhia dos mais pobres, desafortunados ou rejeitados e repartir tudo o que tinha. Em que pese os maus tratos que lhe houveram sido infringidos, durante a caminhada até o local de julgamento, percebia-se claramente ser muito alto, além de dotado de boa compleição física. Pela primeira vez condoeu-se, então. Se condenado, resistiria por mais de dez dias ao suplício. Somente um golpe de misericórdia, quebrando-lhe as pernas, seria capaz de findar o sofrimento, em resultado da asfixia resultante da pressão entre o diafragma e o pulmão. Pobre infeliz, pensou, cuja misericórdia dependerá do legionário incumbido de sua guarda.
De qualquer modo, ali estava, arquejante, muito ferido, cambaleante, mas ainda assim de pé e fitando o inquisidor de modo firme. Os olhos, brilhantes, irradiavam convicção absoluta. Não havia dúvida alguma de que sabia a resposta. Semelhante conduta atordoou o romano ainda preso à religião familiar de culto aos antepassados (ou “mores”), a entender que após a morte a alma (palavra de origem grega – “anima”) permaneceria presa ao corpo, razão pela qual necessitaria de libações e homenagens por parte dos descendentes sob pena de se tornar perdida, desgarrada, “penada” ou sem alívio algum durante a eternidade.
Só mais tarde, a contar do século XX, viria LACAN a ousar interpretar psicanaliticamente o silêncio de acusado tão incomum. Impute-se ao atrevido e talentoso francês, pois, a resposta seguinte: “Ecce homine”. A revelação da verdade resultaria lacaniana, em princípio. Sucede, porém, que quase dois mil anos antes o romano já houvera concluído de modo igual. Conta-se, inclusive, que lavou as mãos, de modo a tornar inequívoco à posteridade que não deveria ser responsabilizado pelo sangue inocente a ser derramado.
Para ele, a condenação resultou da infringência a costumes religiosos locais, assunto em que o Império Romano preferia não se imiscuir por obedecer à estratégia de domínio milenarmente exitosa. O silêncio atordoante findou por convencê-lo e à Humanidade de que a verdade divide-se em relativa e absoluta. A primeira faz parte de nossa dimensão material. A segunda pertence exclusivamente ao domínio absoluto de Deus.
Credite-se ao Padre ANTONIO VIEIRA, reputado o maior de todos os oradores sacros (superior até mesmo a BOSSUET), a melhor distinção entre uma e outra. Através do genial “Sermão da 2ª Dominga do Advento”, leitura obrigatória de todo acadêmico de Direito, adverte-nos temer muito mais o julgamento dos homens do que o de Deus. Diante do espanto que sabe atemporalmente causar, esclarece-nos, desde então, que o julgamento terreno deveria se restringir à prova da conduta (verdade relativa). Suscita-nos, porém, que ousamos cometer o que até mesmo o demo sabe não ser capaz, qual seja, o de ler o coração humano ou percustar a alma dotada pelo Criador de individualidade e autodeterminação.
Conclui, pois, se afigurar mais temente o Juízo temporário do que o Final presidido pela potência divina unicamente capaz de conhecer intimamente nossa consciência, desejos e sentimentos (verdade absoluta).
Em sendo assim, rogamos vênia para aduzir – sob confessado receio de cometer equívoco involuntário – que entendemos traduzir o silêncio a reiterada premonição sobre a injustiça que tanto Ele viria a sofrer, pessoalmente, quanto os milhões de inocentes também sofreriam, durante os séculos seguintes, a pretexto da predominância de credo, raça, poder político e tantas outras maldades em as quais se insere, inclusive, a utilização indevida de seu nome por parte daqueles que, de qualquer modo, merecem ser perdoados porquanto nunca souberam compreender a lição de amor e tolerância que houvera transmitido para sempre, através do sacrifício pessoal dedicado ao Pai e a prol da Humanidade.
A todos que se deram ao trabalho de nos prestigiar, lendo tão pretensioso artigo, auguramos um Feliz Natal, pleno de paz e prosperidade no recinto do lar.
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